O envolvimento de cristãos com a
política tem se tornado algo cada vez mais frequente e amplo, com
representantes de diversas denominações em diferentes esferas políticas.
O pastor Wilson Dantas, que é filiado
ao Partido Social Cristão (PSC) concedeu entrevista sobre o assunto e afirmou
que diversos fatores levam o eleitorado evangélico a não votar em candidatos
evangélicos.
Entre as questões apontadas por
Dantas, estão desde a cultura difundida em muitas igrejas de que crente não se
envolve com política, até a casos de corrupção envolvendo lideranças
evangélicas que enriqueceram de forma ilícita.
Wilson Dantas afirmou que “a cultura
de evangélicos votarem em evangélicos não é bem aceita” porque “muitos pensam
que se votar em evangélicos eles tomariam um rumo diferente quando eleitos e
até se envolveriam em atos que desabonem a conduta cristã”.
Sobre a questão de candidatos
evangélicos se promoverem através das igrejas, Dantas foi enfático: “o púlpito
não é um palanque, é um lugar onde as pessoas ouvem a palavra de Deus e se
trata de assuntos de interesse da igreja. Agora, usar o púlpito como palanque,
eu também não acho correto”.
O pastor, que foi candidato a
deputado mas não conseguiu se eleger, afirma que entre as igrejas, há uma
tendência de se alinhar à candidatos de direita, e relaciona isso aos ensinos
bíblicos: “Houve uma tendência direitista dominante sim entre os evangélicos,
até por preceitos bíblicos, como em Romanos 13 onde diz que toda alma deve
estar sujeita a toda autoridade. Isso não quer dizer subserviência”, e emenda,
dizendo que “a igreja evangélica nunca foi incitada a liderar movimentos
revolucionários esquerdistas, tal como acontece com a igreja católica”.
Confira abaixo a íntegra da
entrevista do pastor Wilson Dantas ao Imperatriz Notícias:
Evangélicos votam em evangélicos?
A cultura de evangélicos votarem em evangélicos não é bem aceita,
principalmente no Brasil. Nós ainda temos muita dificuldade. Dentro da igreja
da igreja que eu pertenço, da Assembleia de Deus, fomos ensinados pelos líderes
pioneiros para que os crentes não se envolvessem com a política. Até porque
eles eram estrangeiros, oriundos da América do Norte, e por isso poderiam ser
mal vistos pelas autoridades brasileiras, o que poderia atrapalhar o trabalho
de missões que eles queriam desenvolver aqui. Ainda muitos pensam que se votar
em evangélicos eles tomariam um rumo diferente quando eleitos e até se
envolveriam em atos que desabonem a conduta cristã. Há uma orientação por parte
da convenção, liderança maior das igrejas, para que a gente venha a trabalhar
esta ideia de forma mais enfática. A gente já percebe uma certa mudança, mas
ainda enfrentamos resistência e não são pequenas.
Você concorda que os pastores e pregadores que ocupam cargos políticos
hoje, conseguiram se eleger por utilizar o púlpito das igrejas como palanque?
Não. Utilizando o púlpito como palanque, não. Agora, fazendo bom uso da
popularidade e da mídia que frequentam, sim. Se eles se elegeram é por que
fizeram bom uso e conseguiram massificar a sua marca, fazer-se acreditar por
suas pregações e com certeza deixaram nos eleitores uma imagem de que, chegando
na política, poderiam representá-los bem. A questão de púlpito como palanque é
relativa, por exemplo, os presidentes de associações de moradores fazem das
associações seus palanques, os empresários fazem isso de suas empresas também.
Então o púlpito não é um palanque, é um lugar onde as pessoas ouvem a palavra
de Deus e se trata de assuntos de interesse da igreja. Agora, usar o púlpito
como palanque, eu também não acho correto.
Mas, para a sua candidatura a deputado estadual em 2007, houve um
plebiscito nas igrejas que fazem parte da Comadesma para decidir o candidato
que a Igreja Assembleia de Deus iria apoiar. Você não acha que isto foi injusto
com outros possíveis candidatos, já que a igreja estava direcionando a opinião
do eleitor evangélico e utilizando a influência dos pastores no púlpito?
O fato de a igreja orientar um candidato ou fazer uma prévia entre si para
lançar um nome entre os seus, não significa tolher a opinião de ninguém, até
por que, na hora do voto o eleitor tem a soberania de escolher em quem vai
votar. O que a igreja tentou fazer no plebiscito em que eu participei foi
deixar os pastores indicarem alguém em que eles acreditassem que iria
representar as suas ideias. Só quem pôde achar isto injusto foi quem não foi
indicado na prévia, e ninguém deixou de se candidatar por causa disso.
Mesmo vencendo nas prévias e com o apoio de muitos pastores, você não
conseguiu voto suficiente para se eleger deputado estadual em 2007. Você se
sentiu traído pelos evangélicos?
Não diria traído, eu posso ter sido vitimado pelo pouco grau de conscientização
política do povo evangélico. Mas cada um é livre para votar em quem quiser. Nós
tivemos muita resistência, e uma das maiores foi a ligação intrínseca que
muitas igrejas tem com as prefeituras. Nós chegávamos aos lugares para pedir
voto e o pastor dizia assim: “Olha, aqui tem muita gente que é funcionária da
prefeitura”. Então a gente ia, o povo prometia o voto, mas depois o prefeito da
cidade chegava lá e dizia: “Eu quero que votem no meu candidato por que vocês
são meus funcionários”. E ninguém queria arriscar o emprego pra votar num
candidato da igreja. Ainda assim tive dez mil quatrocentos e quatorze votos,
mas precisava de mais de 20 mil para ser eleito no meu partido, por que a
legenda era mais alta (PMDB).
Alguns estudiosos dizem que os evangélicos formam uma “nova direita”, já
que por muitas eleições os votos foram mais para candidatos direitistas. Um
exemplo que disso foi a eleição de 1989, quando a grande maioria dos
evangélicos votou em Fernando Collor e houve campanha contra Luís Inácio Lula
da Silva nas igrejas. Você concorda que ainda há esta tendência?
Houve uma tendência direitista dominante sim entre os evangélicos, até por
preceitos bíblicos, como em Romanos 13 onde diz que toda alma deve estar
sujeita a toda autoridade. Isso não quer dizer subserviência. Sujeição
significa respeito. A tendência direitista existe até por conta de alguns
líderes. Na época da eleição entre Lula e Collor de Melo, em 89, foi a primeira
eleição em que eu votei, inclusive, se dizia entre os crentes que o Fernando
Collor era o “salvador da pátria” e o Lula era a própria figura do
“Anticristo”. Tinha ainda ensinamentos dentro da igreja que aquela estrela vermelha
do PT estava ligada às raízes do comunismo. Por conta de tudo isso Lula não foi
bem visto pelos evangélicos nem na primeira, nem na segunda e nem na terceira
vez em que se candidatou. Agora, quando Lula conseguiu o primeiro mandato ele
conseguiu muito voto de evangélico, e para o segundo mandato grande parte
migrou para ele. Mas ainda hoje há esse pensamento centro-direitista entre os
evangélicos. Até por que a igreja evangélica nunca foi incitada a liderar
movimentos revolucionários esquerdistas, tal como acontece com a igreja
católica.
Você já foi vice-prefeito por um mandato na cidade de Amarante-MA (a 150
quilômetros de Imperatriz). Dentro desta vivência na política, você sofreu
alguma tentativa de corrupção?
A corrupção não tenta só os evangélicos, tenta seres humanos, que são
vulneráveis a ela. A própria Bíblia diz e mostra em textos claros dizendo: “O
suborno não aceitarás; não torcerás o direito; não dirás o amargo é doce e o
doce é amargo”, etc. Então se já há esta previsão na Bíblia, que é o livro dos
livros, é pra que na verdade todo mundo venha a se precaver. É uma tentação que
existe no meio político que não segrega e nem isenta ninguém por ser evangélico
ou não ser. Não. Nunca sofri com isso, até porque o cargo que eu ocupei, de
vice-prefeito, era mais representativo que administrativo. Por isso não era
alvo de tentativas de suborno.
O bispo Marcelo Crivela foi colocado no posto de Ministro da Pesca. Uma
de suas primeiras declarações foi que não sabia se quer colocar a isca no anzol
para pescar. Muitos críticos da política afirmaram que a colocação de Crivela
no cargo foi por ele ser evangélico e que a presidenta estaria querendo, com
isso, ganhar mais apoio da bancada evangélica no legislativo. Você concorda com
a distribuição de ministérios utilizando estes critérios?
Não. Não concordo com alguém ser colocado num ministério apenas por ser
evangélico ou por não ser, até por que apesar de ser um cargo político,
assessor direto da presidência da república, é um cargo que vai ajudar a “gestoriar”
o país e deve ser ocupado por quem está capacitado. Por sinal, não posso
afirmar que tenha tido uma ligação direta como esse episódio, mas poucos dias
antes da nomeação de Crivella, houve uma fala do Secretário Geral da
presidência da república, Gilberto Carvalho, dizendo que a principal batalha do
PT seria contra os evangélicos no país, por que eles eram contra as suas
opiniões e os seus fundamentos. E como uma resposta a esta fala absolutamente
infeliz de Gilberto Carvalho, a presidenta Dilma dá uma nomeação destas, que
mostra que o pensamento dela não foi aquele capitaneado pelo chefe do governo.
Eu acho que tem tudo haver com uma composição política. E digo mais: se dar um
ministério para os evangélicos é uma forma de contemplar, eu diria que um ministério
seria pouco para a grande parcela de evangélicos que existe no país hoje, da
forma como nós contribuímos para o bem estar da nação.
Nos últimos meses
houve alguns escândalos na mídia envolvendo pastores líderes de igreja. As
denúncias versam sobre: sonegação de impostos, uso do dinheiro dos fiéis para
enriquecimento próprio. O senhor acredita que isto pode afetar a imagem dos
pastores evangélicos que pretendem se candidatar nas eleições deste ano?
A onda de “denuncismo” existe hoje na política, principalmente quando alguém se
projeta. Quem sai no sol está sujeito a, no mínimo, ser queimado pelos raios
ultravioletas. Não quero aqui defender, por que eu acho que quem agiu de forma
errada, quem enriqueceu ilicitamente, se é que isso aconteceu, deve responder
por isso na justiça, independentemente da posição social, eclesiástica ou
política. De forma geral, isso é massificado na mídia e não deixa de ter uma
influência negativa sobre os evangélicos. E há uma campanha por parte da mídia
e dos políticos profissionais para a não inserção de evangélicos na política,
na intenção de anular a imensa maioria de evangélicos que são verdadeiros e
honestos. Afeta sim, mas é como uma massa fermentada que quanto mais bate, mais
cresce. Ou seja, a avalanche da migração de evangélicos para a política,
ninguém vai barrar.